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quarta-feira, 16 de março de 2011

Metade - Oswaldo Montenegro

"Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também."

sábado, 5 de março de 2011

O tombo.


Também tem os seus momentos de fragilidade, de tristeza profunda. E só assim pode compreender o sentimento dos outros, quando mergulha nas suas próprias franquezas. Quando se vê dominar pela ausência do bem. Ela se culpa também por não desempenhar os seus papéis com excelência. Por falhar. É difícil aceitar que também erra, e no seu intimo sabe que erra muito mais vezes do que deveria. Deixa coisas à fazer, usa mal o tempo preciso, e cada fração tempo do tempo que passa é a morte. O excesso de controle, métodos transforma isso num verdadeiro caos. A ferida fica no ego. O mundo desaba, a fé se abala. E não se sabe por hora como apaziguá-la. O lado bom do cárcere, é que os defeitos dão margem para melhores correções, mesmo que se precisem de concessões. Muitas delas. E ninguém disse que ia ser fácil. Ninguém disse que ia sempre estaria tudo bem. A chuva caí la de fora, como as lágrimas incessantes dos olhos. Dói. ERRAR dói. Embora o martírio não seja saudável, é infelizmente. Inevitável.